Mestre Sérgio José defendeu, na Escola Superior de Negócios e Empreendedorismo de Chibuto (ESNEC), que a escassez pode ser terreno fértil para o empreendedorismo, desde que haja ética e transparência.
A crise pode destruir um modelo de negócio, mas também abre espaço para a criação de um novo. Foi esta a tese central da palestra intitulada “Empreender em contextos de crises: como transformar escassez em oportunidade”, proferida por Mestre Sérgio José a 15 de Outubro de 2026, no alpendre da ESNEC.
Para sustentar a ideia, o orador recorreu ao exemplo da Parmalat, empresa italiana que se tornou uma multinacional com subsidiárias em vários países. O seu fundador, Calisto Tanzi, acumulava também a presidência do Conselho de Administração e outras funções relevantes na gestão.

Segundo o orador, esse acúmulo gerou um conflito de interesses. Tanzi nomeou pessoas da sua confiança, entre contabilistas e auditores internos, para as subsidiárias. Cada unidade ficou isolada das restantes, o que impedia a consolidação das demonstrações financeiras e facilitava a manipulação da informação.
Competências técnicas, ética e governança corporativa ficaram em segundo plano, e foram produzidas informações falsas para investidores, accionistas e outros grupos de interesse.
A mentira foi acumulando dívidas até rebentar a crise. Uma empresa que apresentava valores de 3,95 mil milhões não conseguiu pagar uma dívida de 150 milhões. Foi declarada insolvente e passou por uma reestruturação, na qual foram afastados os responsáveis pela má gestão, incluindo o próprio fundador, e admitidos profissionais competentes e comprometidos com os objectivos da empresa. Em 2011, uma companhia francesa comprou a Parmalat e, em vez de a extinguir, reergueu-a.
Com o caso, o orador quis mostrar que não se pode ter medo de recomeçar. Para o orador, a crise pode ser o momento de acabar com um modelo marcado por falhas de transparência, responsabilidade e prestação de contas.
Defendeu que, perante a escassez, o empreendedor deve inovar, em vez de simplesmente reclamar da falta de recursos, e deixando orientações práticas que incluem:
reduzir desperdícios e aproveitar melhor os recursos disponíveis; identificar as necessidades que surgem durante a crise e criar produtos e serviços que lhes respondam; reorganizar o negócio quando o modelo anterior deixa de funcionar; recuperar a confiança de clientes, parceiros e investidores através de informação fidedigna; e trabalhar com transparência, responsabilidade e boa gestão.
“É preciso olhar para a crise como uma oportunidade de mudança”, afirmou.
Com preocupação, Sérgio José observou que as questões éticas estão a perder terreno e apelou ao investimento na ética, na responsabilidade e na prestação de contas, que considera indispensáveis para qualquer negócio que pretenda perdurar.
O orador fez questão de não romantizar o tema, referindo que a crise traz desemprego, endividamento e incerteza. Para o empreendedor, contudo, pode revelar necessidades antes invisíveis e nichos de mercado por explorar.
“A diferença está na capacidade de transformar o problema em pergunta”, defendeu.
Sugerindo que a questão certa é que soluções se podem criar com os poucos recursos disponíveis.
Concluiu que as oportunidades não se procuram apenas onde há recursos, mas onde existem problemas, pois todo o problema por resolver representa uma necessidade, e toda a necessidade pode gerar uma oportunidade de emprego.